O Colecionismo no Brasil no Século XXI

Como  está o cenário artístico no Brasil e como os estrangeiros têm observado a arte brasileira? Colecionadores devem permanecer solteiros? Estas e outras questões foram debatidas no primeiro seminário internacional, O Colecionismo no Brasil no Século XXI, sobre arte, acervos, coleções, colecionadores e museus, promovido pela editora Brasileiros, responsável pela publicação ARTE!Brasileiros

O evento foi dividido em quatro painéis, que ocorreu no último dia 4 de setembro, em São Paulo, no Auditório Ibirapuera, e reuniu diretores de museus, colecionadores, curadores e autoridades governamentais do Brasil e exterior, além da parceria da Prefeitura de São Paulo e apoio do Auditório Ibirapuera, Itaú Cultural, Pinacoteca do Estado, Governo do Estado de São Paulo, Instituto Tomie Ohtake, American Airlines, Tivoli Hotels & Resorts, Chandon, Santa Mônica tapetes e carpetes, FirmaCasa, Mont Blanc e dos media partners BandNews FM e Rádio Bandeirantes. 

Painel 1 – A Importância de Diretrizes Políticas e de Políticas Públicas para a Formação de Coleções

O tema foi debatido por Marcelo Mattos Araújo, secretário estadual de Cultura de São Paulo; Carlos Augusto Machado Calil, secretário municipal de Cultura de São Paulo; José do Nascimento Júnior, presidente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram)  e Evaristo Martins de Azevedo, presidente da Comissão de Direito às Artes da OAB, seção São Paulo.

Da esquerda para direita: Marcelo Mattos Araújo; Carlos Augusto Machado Calil; José do Nascimento Júnior e Evaristo Martins de Azevedo (Foto: Tarcila Zonaro)

Para Carlos Augusto Machado Calil, secretário municipal de Cultura de São Paulo, discutir a questão das artes plásticas se mostra uma grande oportunidade. Ele também destacou a importância de Ciccillo Matarazzo, que fundou a Bienal de Artes e foi provedor de dois grandes museus de São Paulo: o Museu de Arte Moderna (MAM) e o Museu de Arte Contemporânea (MAC). De acordo com Calil, Ciccillo pôde doar estas duas coleções porque ele não tinha filhos. “Fico pensando se não é fundamental que colecionadores sejam solteiros e não progenitores, para evitar problemas sucessórios”, destacou o secretário municipal.

Calil ainda comentou sobre a formação de coleções que se tornam ‘problemas‘, pois muitas vezes não há espaços para serem expostas. Um exemplo foi a Coleção de Arte da Cidade, constituída na Biblioteca Mário de Andrade pela iniciativa de Sérgio Milliet e Maria Eugênia Franco. São 2.800 obras, como desenhos originais de Tarsila do Amaral para o livro Pau-Brasil de Oswald de Andrade, desenhos e gravuras de Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Lasar Segall, Portinari, Volpi, além de coleção de desenhos de Rugendas, gravuras de Mirò, Renoir, Chagall, entre outros artistas.
Este importante acervo está alocado no porão do Centro Cultural São Paulo (CCSP) há 30 anos e deve ser exposta, permanentemente, na Chácara Lane (edificada entre 1890 e 1906), construção que faz parte do Museu da Cidade.

Outra aquisição de grande importância foi a coleção de Ronoel Simões que deve integrar a Discoteca Oneyda Alvarenga. É considerado um dos maiores acervos de violão do mundo. que foca o dedilhado, ou seja, exclui o repertório tocado com palheta. São aproximadamente 25 mil partituras e 15 mil gravações; discos de acetato; de 78 rpm; LPs; CDs; somados a recortes jornalísticos; cartas de Andrés Segovia e Heitor Villa-Lobos, perfazendo um total de 50 mil documentos.

A história circense também tem seu espaço no Centro de Memória do CircoO acervo foi criado a partir de arquivos provenientes de duas famílias e companhias circenses, como o Circo Nerino (1913-1964) e o Circo Garcia (1928-2003).

Foram debatidos ainda temas como a importância da criação de cursos de graduação e pós-graduação em Museologia;  a necessidade de se colecionar, com intensidade, a atual Arte Contemporânea Brasileira, pois tem sido adquirida por estrangeiros e pode causar a falta de obras que retratem a época daqui a 20 anos, por exemplo, e os altos impostos que permeiam o mercado de obras de arte.

Painel 2 – A Formação de Coleções Públicas e Privadas

O tema foi debatido por Cecilia Fajardo-Hill, curadora-chefe do Museum of Latin American Art (MOLAA), EUA; Fábio Magalhães, museólogo; Sofia Fan, gerente do núcleo de Artes Visuais do Instituto Itaú Cultural e Frederico Morais, crítico, historiador de arte e curador independente.

Da esquerda para direita: Cecilia Fajardo-Hill;  Fábio Magalhães; Sofia Fan e Frederico Morais (Foto: Tarcila Zonaro)

Cecilia Fajardo-Hill destacou que o Museum of Latin American Art (MOLAA) e a arte latino-americana, tem como missão educar o público norte-americano na questão de interpretação da arte moderna e contemporânea da América Latina e promover um diálogo multicultural.

Sofia Fan apresentou os acervos do Banco Itaú e do Itaú Cultural, que integram mais de 12 mil obras, com 3.6 mil peças de todos os movimentos da história da arte nacional, 6.4 mil itens da Coleção de Numismática; 2.2 mil peças da Coleção Brasiliana, que retratam os 500 anos do Brasil e sua cultura, todos adquiridos sem leis de incentivo, entre outras obras que inclui o audiovisual. “O foco é o público externo e o Itaú Cultural atua como gestor e coordena empréstimos para diversas mostras. Nossa intenção é democratizar o acesso a arte”, destacou Sofia.

Destaque: Série IconoClássicos, do Itaú Cultural, que deve ser exibida em circuito.
Mais informações, clique aqui.

Já o museólogo Fábio Magalhães e o historiador e crítico Frederico Morais focaram a importância do ato de colecionar. Entretanto, Morais foi taxativo ao afirmar que “a arte não pertence aos museus, às galerias de arte, ao governo, aos colecionadores, e no limite da interpretação, não pertence aos artistas. A arte não pertence a ninguém. A arte pertence a todos. A arte é um bem comum da humanidade. É o ouro das nações”.

Painel 3 – O que Podemos Fazer para que Grandes Coleções Privadas tenham Acesso ao Público?

O tema foi debatido por Ella Fontanals-Cisneros, colecionadora e fundadora da Cisneros Fontanals Art Foundation (CIFO), EUA; Eduardo F. Costantini, fundador, colecionador e presidente do Malba – Fundación Costantini, Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires, Argentina; Patrick Charpenel, curador, colecionador e diretor da coleção JUMEX, México, e João Carlos de  Figueiredo Ferraz, fundador e mantenedor do Instituto Figueiredo Ferraz.

Da esquerda para direita: Ella Fontanals-Cisneros; Eduardo F. Costantini; Patrick Charpenel e João Carlos de  Figueiredo Ferraz (Foto: Tarcila Zonaro)

Ella Fontanals-Cisneros começou a colecionar arte no começo dos anos 1970, com interesse na produção Latino-americana. Com o crescimento do acervo, surgiu o Cisneros Fontanals Art Foundation (CIFO) que abriga três principais áreas: Arte Abstrata Latino-americana, com obras de Joaquin Torres-Garcia e Lygia Clark; Arte Contemporânea com ênfase em Vídeo-Arte e Fotografia Contemporânea, focada em Arquitetura.
“Cada um pensa de forma diferente, mas todos tem a custódia de algo que pertence ao mundo. Podemos ter a ‘guarda’ e cuidar das obras, mas a parte filantrópica tem que fazer parte do pensamento do colecionador. Nem todo colecionador gosta de tornar público o que tem. Essa é uma questão pessoal, mas é muito importante saber que esses artistas e essas obras têm, por meio da gente, a possibilidade de serem conhecidas e vistas ao redor do mundo”, defendeu Ella.

O Malba – Fundación Costantini, Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires, Argentina, foi inaugurado em setembro de 2001 pelo colecionador Eduardo F. Costantini, e se tornou a morada da obra Abaporu (1928), de Tarsila do Amaral, arrematada em leilão por 1,4 milhão de dólares, em 1995. De acordo com Costantini, não há incentivo do governo: “ Precisamos de uma modificação, que promova uma maior participação entre esses setores. O Malba acabou de completar dez anos e nasceu da inciativa de uma única família. Muitas instituições, como o Guggenhein, surgiram de projetos familiares e, depois, atenderam o interesse público”.

Já Patrick Charpenel, diretor da Fundação JUMEX, afirmou: ”No México, um dos grandes males nas operações é a burocracia. Os museus operam em condições muito difíceis e o apoio de empresas do setor privado é muito importante para manter essas instituições abertas ao público e contribuir em muitos níveis para não só promover exposições, mas enriquecer o debate e disseminar opiniões construtivas em simpósios e seminários como esse”.

Colecionador há 30 anos, João Carlos de  Figueiredo Ferraz possui um acervo em Ribeirão Preto, instalado no Instituto Figueiredo Ferraz. Apesar de também não ter apoio do governo, ele destacou a mobilização da sociedade civil para levar essas coleções ao público, e afirmou que esta questão de território é irrelevante, a exemplo da obra de Tarsila do Amaral (Abaporu) que está muito bem alocada no Malba.
Ferraz ainda afirmou que é necessário melhorar a educação; reformar os museus brasileiros que estão ‘caindo‘, com goteiras – e ainda focou a diferença entre os conceitos de arte, cultura e lazer: “Dizem que a arte é para uma elite, mas isso nada tem a ver com questões financeiras. A arte é para uma elite de sensibilidade. Uma coisa que me preocupa é que o Estado confunde cultura com lazer e entretenimento não é cultura”.
“Atualmente, sou apenas um zelador daquelas determinadas obras de arte que no futuro, depois que eu morrer, vão arrumar outros zeladores”, destacou o colecionador.

Painel 4 – Formas Contemporâneas de Difusão: Acervos, Acervos Digitais, Patrimônio Imaterial, Ações Efêmeras

O tema foi debatido por Stela Barbieri, curadora educacional da Fundação Bienal de São Paulo e diretora da Ação Educativa no Instituto Tomie Ohtake; João Candido Portinari, diretor do Projeto Portinari e filho de Candido Portinari; Christine Buhl Andersen, diretora do KOS Museum of Art in Public Spaces e chairperson da Associação de Museus Dinamarqueses, Dinamarca; Martin Grossmann, diretor do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo e professor titular da Escola de Comunicações e Artes (ECA); Jochen Volz, diretor artístico do Instituto Inhotim, e Guilherme Wisnik, crítico de arte e arquitetura.

Da esquerda para direita: João Candido Portinari; Stela Barbieri; Christine Buhl Andersen e Jochen Volz (Foto: Tarcila Zonaro)

A questão educativa, a preservação da memória de artistas e de suas obras foram alguns dos assuntos que permearam o quarto painel.

João Candido Portinari mostrou a sua trajetória para preservar a memória e, principalmente, resgatar a produção artística de seu pai, o artista plástico Candido Portinari. À frente do Projeto Portinari há 33 anos, ele também destacou a importância e satisfação de ter trazido os painéis “Guerra e Paz”, que levou mais de 200 mil visitantes ao Memorial da América Latina, em pouco mais dois meses, em 2012, e cerca de 90 mil pessoas ao Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 2010.
De acordo com João, os primeiros 25 anos do Projeto Portinari foram um “trabalho de formiguinha”, dedicados à muita pesquisa e à localização de obras de Portinari espalhadas pelo País, até porque 95 por cento do acervo de Portinari está em coleções particulares.
Assim como na abertura da exposição “Guerra e Paz”, João apresentou o poema “A Mão”, escrito por Carlos Drummond de Andrade para Portinari, no dia 6 de fevereiro de 1962 – data da morte do artista.

A importância da Bienal de Artes de São Paulo e do KOS Museum of Art in Public Spaces foram destacados respectivamente por Stela Barbieri e pela dinamarquesa Christine Buhl Andersen. “Foi muito surpreendente pra mim o que uma Bienal catalisa, o que uma Bienal pode movimentar. A Bienal é realmente um lugar de todos nós. Apesar de não ser pública, ela é pública”, afirmou Stela.

De acordo com  Christine, que exibiu diversas imagens de obras de artes instaladas pelo mundo, a importância da arte ao ar livre com a eficiência urbana e o fato de atrair a atenção mesmo daqueles que não tem um histórico de instrução artística, traz aprendizados de como conservar as obras e mantê-las em seu melhor estado.

Por fim, Jochen Volz, diretor artístico do Instituto Inhotim destacou a tríade em que tudo é baseado: público, educação e acervo. Idealizado pelo colecionador Bernardo Paz, Inhotim conta com 120 hectares visitáveis de arte integrada a natureza. Apesar disso, ele admitiu que a arte de lá não existe sem o público, que precisa se deslocar até a cidade de Brumadinho (60 km de Belo Horizonte).

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