Nunca roube um colecionador

Sexta-feira. Véspera de feriado do Carnaval 2010. A rotina de banho seguido de café da manhã se repete. Primeiro a esposa, depois o marido. Ambos seguem para o trabalho.
Assim começou um dos dias mais difíceis para um colecionador de gibis, DVDs e CDs. Fã de rock dos anos 50, Bruno foi pego de surpresa ao voltar para casa e encontrar seu apartamento arrombado.

O saldo do prejuízo: aproximadamente 70 DVDs de filmes e desenhos animados; 50 CDs de diversos estilos musicais, que vão desde jazz até rockabilly (Stray Cats, por exemplo); uma câmera fotográfica digital; um aparelho de DVD; frascos de xampu e um alicate de cutícula. Mas um anel de ouro foi ignorado.
Principal suspeito? Um ex-vizinho traficante e que tem um peculiar histórico com a Justiça brasileira.

Uma das séries furtadas: “Os Melhores do Mundo” (Foto: tarcilaz)

Além da frustração, ficou o sentimento de impotência e o eterno resgate de cada objeto que fazia parte do acervo único. Qual o próximo passo? Comprá-los novamente? Alguns estavam fora de catálogo ou seriam extremamente caros, mas outros precisariam ser repostos.

Após o estresse, Bruno passou a procurar em sites de leilão, como o Mercado Livre, alguns dos itens furtados – como os desenhos da série “Os Melhores do Mundo”, da Liga da Justiça. Exatos 30 dias após a perda desses objetos para o mundo do crime, o colecionador encontrou o almejado box da Liga ao visualizar o anúncio de um sebo. Para surpresa dele, ao clicar em “ver produtos deste vendedor”, encontrou boa parte dos CDs e DVDs que lhe haviam sido furtados.

Como foi possível ter certeza?
Simples! O box “Os Melhores do Mundo” é composto por cinco DVDs: Liga da Justiça; Batman do Futuro – O Retorno do Coringa; Batman & Mr. Freeze – Abaixo de Zero; Batman & Superman – Os Melhores do Mundo e Batman – A Série Animada – O Início da Saga. Eterno fã de quadrinhos, ele simplesmente alterou o conteúdo da embalagem ao remover o DVD Batman – A Série Animada e incluir outro sob nome Batman, A Máscara do Fantasma. E o box havia sido furtado desta forma, o que permitiu a identificação.

Após visualizar a foto, Bruno teve a certeza que aquele sebo, na região central de São Paulo, estava comercializando os itens de sua coleção. Outro exemplo que provaria que os objetos eram dele era uma plaquinha de metal que estava na caixa de CDs do músico Eddie Cochran. Ele ganhara a placa de um amigo na época de garoto. Havia muitos sentimentos em jogo. Lembranças que tinham sido arrancadas, mas que poderiam ser reconquistadas.

Era um domingo e o sebo estava fechado. Após recomendações de dois delegados, foram dados lances em alguns produtos para que fosse possível entrar em contato com o dono do sebo. Na manhã de segunda-feira, o colecionador se dirigiu à delegacia, e acompanhado de policiais à paisana foi até o estabelecimento comercial identificar os objetos. E toda a suspeita se confirmou. O “Melhores do Mundo” estava lá, alterado, e a plaquinha junto aos CDs do Cochran.

Dono do sebo afirmou na ocasião que nem tinha notado a presença da plaquinha de metal do Eddie Cochran (Foto: tarcilaz)

Resultado: o colecionador teve um final feliz, e recuperou praticamente todos os filmes e CDs. O dono da loja alegou que um senhor havia vendido o acervo de Bruno, mas ele não tinha nome nem documento do sujeito. Duas semanas depois, o proprietário do sebo recebeu “um puxãozinho de orelha” durante a audiência, assim como se faz com crianças que “pintam o sete”.

Com um final irônico, justamente o box da Liga fez com que a justiça fosse feita. Mas ainda restam algumas dúvidas. Será que todo sebo ou brechó solicita o número do documento das pessoas que lhes oferecem verdadeiras joias raras?
De acordo com pesquisa em alguns sebos da região de Pinheiros, na cidade de São Paulo, nenhum dos proprietários se preocupa com essa questão – obter os números de RG, por exemplo. As pessoas simplesmente entram, oferecem os produtos, acertam um valor, recebem o dinheiro e possivelmente nunca mais voltam.
Para Messias Coelho, do Sebo do Messias, há sempre a preocupação em anotar o nome e o RG do vendedor para evitar futuros problemas.

Mas, e nessa situação, o Mercado Livre foi o mocinho ou o vilão?
E o que fazer diante de negociações irregulares?

Essa é uma das questões esclarecidas no site de leilões brasileiro, que sugere em situações extremas, como a de Bruno, contatar a polícia para denunciar atividades suspeitas.

E apesar de tudo ter ocorrido no Carnaval, não foi um dia de folia.

O nome do personagem foi modificado para preservar sua identidade.

Comments
  1. Danyael Lopes | Responder
  2. Carol Gonçalves | Responder
  3. Lore | Responder
  4. Lincoln Leite | Responder
  5. @kolecoes | Responder
  6. Charles | Responder
  7. Sheila | Responder
  8. Adriano | Responder
  9. Marcos Mendes | Responder

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